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IA Generativa e Arte: É Realmente Apenas Slop?

IA Generativa e Arte: É Realmente Apenas Slop?

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Perspectivas
Daniela Petruzalek
Autora
Daniela Petruzalek
Senior Developer Relations Engineer at Google

“Slop” é o insulto que define o atual ciclo da tecnologia. É uma palavra útil. Ela descreve o cansaço de abrir um feed lotado de conteúdo preguiçoso, gerado ao digitar três palavras numa caixa de prompt e publicar o resultado sem nenhum tipo de revisão. Mas será que ela deveria ser usada para rotular toda uma nova categoria de arte sem critério algum?

Um aviso: este ensaio não é sobre treinamento de IA
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Antes de começarmos, vamos tirar o elefante da sala: não vou debater dados de treinamento, web scraping ou leis de direitos autorais aqui. Não sou qualificada para entrar nesses assuntos e nem vou tentar.

Diagrama da Fase de Treinamento vs Camada de Inferência

Por outro lado, sou pragmática. Esses modelos existem e vieram para ficar. As pessoas vão usá-los, queiramos nós ou não. Então, vamos deixar a discussão acima para os especialistas e focar no que está à nossa frente: inferência, ou em outras palavras, o processo de gerar arte por meio de prompts.

A natureza cíclica da tecnologia e da arte
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Você já parou para pensar que, ao estudar a História do mundo, muitas vezes estudamos a História da Arte em paralelo? Toda grande revolução tecnológica cria uma nova maneira de fazer arte. Vimos essas ondas acontecerem com o surgimento da imprensa, da fotografia e dos computadores, só para citar alguns exemplos. Coincidentemente, toda nova forma de arte foi duramente criticada pela sua própria “velha guarda”.

Na Holanda do século XVII, os realistas holandeses pintavam o cotidiano: comerciantes, cenas de taverna e cozinhas pacatas. Os pintores clássicos desdenhavam disso como algo barato, comercial e preguiçoso. Durante a Revolução Industrial, os neoclássicos ridicularizavam o estilo emotivo do Romantismo como “delírio febril”. No entanto, ambos os movimentos encheram museus e se tornaram o padrão tradicional contra o qual os artistas do futuro tiveram que lutar.

A revolta em torno da arte de IA se encaixa perfeitamente nesse mesmo padrão. O que vemos hoje é um novo meio colidindo com velhas noções de artesanato e técnica.

Slop para alguns, arte para outros
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Para começar, nunca precisamos de IA para criar “slop”. Muito antes dos modelos de texto para imagem existirem, a sociedade já discutia onde a arte termina e o ruído de baixo esforço começa. A questão principal é: onde traçar a linha?

Vamos dar uma olhada em algumas obras de arte e em seus contrapontos.

Retrato clássico vs. pop art produzida em massa
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Mona Lisa (Leonardo da Vinci)Mona Cat (Romero Britto)
Mona Lisa de Leonardo Da VinciMona Cat de Romero Britto

A Mona Lisa de Da Vinci é universalmente aceita como bela-arte, mas e a Mona Cat de Romero Britto? Os críticos frequentemente chamam a obra de Britto de slop comercial devido ao uso de métodos industriais e produção em massa, além de ser derivativa. Na sua opinião, a crítica é válida ou é apenas uma questão de gosto? Não existe resposta certa para essa pergunta, já que a arte dele evoca sentimentos diferentes em pessoas diferentes.

Intenção vs. execução
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Ecce Homo (Elías García Martínez)Ecce Homo “Restaurado” (Cecilia Giménez)
Ecce Homo OriginalEcce Homo Restaurado

O que a maioria consideraria uma tentativa desastrada de restaurar um afresco deteriorado acabou se tornando um acidente feliz para a pequena comunidade de Borja, na Espanha. Graças à internet, o interesse pelo Ecce Homo (pintado por Elías García Martínez por volta de 1930) cresceu exponencialmente, transformando-se em um fenômeno da cultura pop e destino turístico internacional. Este é um caso em que a visão da artista-restauradora amadora Cecilia Giménez não correspondeu à sua técnica, mas a tentativa em si virou arte, mesmo que a intenção original dela não fosse tomar essa forma.

Girl with Balloon (Banksy)Love is in the Bin (Banksy)
Girl with Balloon de BanksyLove is in the Bin de Banksy

Outro caso famoso em que intenção e execução não coincidiram, mas acabaram criando uma nova obra de arte mesmo assim, é “Love is in the Bin”, de Banksy. O que supostamente era um mecanismo de segurança para destruir sua pintura caso ela fosse a leilão falhou no meio do processo de trituração, deixando “Girl with Balloon” apenas parcialmente destruída. Toda a experiência de assistir a uma obra de arte que tinha acabado de ser vendida por mais de um milhão de libras ser picotada em pedaços poderia ser considerada uma expressão artística por si só. Da última vez em que foi vendida, ela alcançou mais de 18 milhões de libras!

Banana de galeria vs. kiwi esquecido
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Comedian (Maurizio Cattelan)Forgotten Kiwi (Daniela Petruzalek)
Comedian de Maurizio CatellanForgotten Kiwi

Este talvez seja o principal exemplo de arte de baixo esforço do nosso tempo, mas que ainda assim alcançou US$ 120.000 em um leilão. Maurizio Cattelan colou uma banana com fita adesiva na parede de uma galeria. E o comprador? Comeu a banana. Tudo leva a crer que se trata apenas de uma banana superfaturada, se não fosse pelo contexto e pelo título da obra: “Comedian”. Algumas pessoas vão enxergá-la como slop; outras, como uma crítica ao consumismo ou talvez até à própria arte.

Por que Comedian é uma obra de arte, mas este kiwi que esqueci no fundo da geladeira não é? (Não se preocupe: assim como o comprador de Comedian, eu comi o kiwi depois de tirar esta foto.) O fato é que a arte nunca foi definida unicamente pelo trabalho manual exigido ou pelo objeto físico em si. Ela depende de contexto, intenção e da reação do público.

Sem nenhuma ironia: agora que o meu Forgotten Kiwi foi apresentado em palestras de conferências e neste blog, talvez ele tenha, de fato, se tornado arte.

Não devemos fazer gatekeeping com a arte
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Quando um novo meio surge, os guardiões (gatekeepers) tentam definir o que conta como “arte de verdade”. Quase sempre amarram suas definições ao trabalho físico, à destreza manual ou a ferramentas tradicionais.

Quando a fotografia surgiu no século XIX, os pintores a rejeitaram. Alegavam que apertar um botão era rápido demais para ser arte, já que não exigia nenhuma habilidade com o pincel. Levou décadas para que a fotografia fosse reconhecida como arte.

Eyes of the Night por Jade Gosrani

Apertar um botão leva um segundo. Mas capturar uma imagem como Eyes of the Night, de Jade Gosrani, exige dias rastreando a vida selvagem, dominando a luz e esperando pacientemente. A arte está na visão, no preparo e na intenção, não no clique físico.

Nós já separamos a visão da execução manual em outras áreas:

Frieren Concert in London
Concerto de Frieren em Londres. Foto por https://x.com/AnimeBlurayUK

Na música, creditamos a trilha sonora de Frieren ao compositor Evan Call. Em um concerto ao vivo, Call não toca todos os instrumentos. Dezenas de músicos tocam sob a regência de um maestro, enquanto o compositor fornece a visão, a estrutura e a partitura.

Akira (Katsuhiro Otomo, 1988)Titanic (James Cameron, 1997)
Akira 1988Titanic Bastidores

No cinema, Akira, de Katsuhiro Otomo, utiliza mais de 160.000 quadros desenhados à mão. Otomo não desenhou cada quadro pessoalmente. Um estúdio inteiro executou a sua visão. Em Titanic, de James Cameron, dezenas de profissionais da equipe construíram maquetes e operaram efeitos visuais. Nós creditamos o diretor, que molda a história, e não cada técnico no set.

A Wikipédia oferece esta definição abrangente de arte:

“A arte é uma gama diversificada de atividades humanas centradas em obras que utilizam talentos criativos ou imaginativos, que se espera que evoquem uma experiência válida, geralmente através da expressão de poder emocional, ideias conceituais, proficiência técnica ou beleza.”

Curiosamente, o parágrafo logo a seguir admite que nem mesmo essa definição é um consenso:

“Não há uma definição universalmente aceita do que constitui a arte, e sua interpretação variou amplamente ao longo da história e entre diferentes culturas.”

Se nem a enciclopédia consegue definir arte, o gatekeeping fracassa, porque habilidade não é apenas trabalho braçal. Ela se move para a direção criativa.

Uma definição pragmática de slop
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Acredito que o slop é produzido quando falta visão, esforço e/ou intenção. É a versão fast food da produção de conteúdo. Para quem tem inclinação para a matemática, gosto de dizer que o slop é inversamente proporcional à inspiração:

\[ \text{SLOP} \propto \frac{1}{\text{INSPIRAÇÃO}} \]

Inspiração é pegar uma ideia na sua cabeça e transformá-la em algo que se conecta com as outras pessoas. Se você traz zero inspiração para uma ferramenta, o que você obtém é slop, não importa o quão bom o modelo seja.

Compare um prompt preguiçoso de duas palavras como anime girl com este prompt, que explora cuidadosamente a linguagem de domínio da criação de imagens para materializar uma visão:

Character: teenage girl with pink hair, shoulder length, wavy. 
Blue eyes, gentle smile. School uniform, white blouse, tartan skirt.

Scenario: classroom, back seat, close to the window.

Action: girl is sitting at her desk, book open in front of her, but 
she is looking at the window, holding her chin with her left hand, 
melancholic look, pensive.

Style: anime, watercolor, 90's, pastel tones, shoujo

Environment: midday light, natural light from the window, artificial 
light from the ceiling

Camera: low angle, profile picture three-quarter view

E o resultado:

Cena de Sala de Aula de Anime dos Anos 90

O segundo prompt se apoia no conhecimento de estilos de arte, enquadramento, iluminação e composição. O resultado varia ligeiramente a cada execução, mas o clima, o enquadramento e a direção permanecem consistentes porque o prompt fornece uma orientação clara.

Para guiar um modelo com eficácia, seja gerando imagens ou escrevendo código, você precisa dominar a linguagem de domínio do seu meio. Para imagens cinematográficas, você precisa entender de ângulos de câmera e iluminação (low angle, three-quarter view, rim light). Para ilustrações, precisa conhecer estilos artísticos (90s shoujo, watercolor).

Guia de Estrutura de Prompt

Um prompt estruturado (como este framework de @kantakanta1233) cobre dez áreas específicas: estilo, tema, características, vestimenta, pose, composição, cenário, iluminação, acabamento e palavras-chave negativas. Construir um prompt como esse é direção criativa, e mesmo após criar o prompt, haverá várias execuções e ajustes antes de se chegar ao resultado final. Tudo isso faz parte do processo criativo.

Ter um bom prompt não é suficiente: ele precisa ser o seu prompt
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Essa questão surgiu durante a minha palestra no GDG Community Summit e achei que valia a pena mencioná-la aqui. Digamos que alguém gaste todo esse tempo e inspiração criando o prompt perfeito, e aí outra pessoa vai lá, copia esse prompt e o roda com o mínimo de esforço. Isso é arte?

Nesse caso em particular, não é diferente de falsificar uma pintura ou de copiar e colar do Stack Overflow. A pessoa que apenas pegou o prompt e o executou é uma “copiadora” (copycat). É claro que é difícil rastrear a procedência de imagens na internet para saber se foram criadas pelo autor ou por alguém que só copiou o prompt. No fim das contas, a confiança e a reputação também desempenharão um papel fundamental em determinar o que é arte e o que é uma cópia de baixo esforço.

O paralelo com a engenharia de software
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Caso você ainda não tenha reparado, tudo o que está sendo discutido aqui sobre arte também se aplica à nossa área de engenharia de software. Embora muita gente já tenha adotado o desenvolvimento com IA, muitas pessoas ainda o descartam como o slop do “vibe coding”. Há uma forte resistência porque as pessoas acreditam que isso está arruinando a engenharia de software como carreira.

Para mim, a IA é justamente o oposto. Ela não só me ajuda a automatizar as partes chatas do meu trabalho (não aguento mais escrever outra API CRUD na vida!), como também está me permitindo fazer coisas que eu não conseguiria fazer sozinha de outra forma.

Por exemplo, todo o motivo de eu ter entrado na área de engenharia foi porque eu queria desenvolver jogos, um sonho que nunca se concretizou (mas sem arrependimentos aí). Agora, com o suporte de IA, a barreira de entrada ficou tão mais baixa que posso me divertir criando meus jogos mesmo com meu tempo e habilidades limitados. Não sei compor música sozinha, mas com o apoio do Gemini e do Lyria 3 consigo direcionar o modelo para a minha visão. Não tenho paciência para desenhar cada sprite e asset, mas com o Nano Banana posso guiar o modelo para gerar os assets de que preciso, e ter uma demo jogável em questão de horas em vez de dias ou semanas.

Engenharia nunca foi só sobre digitar código num editor, da mesma forma que arte nunca foi só sobre segurar um pincel. À medida que as ferramentas de IA assumem mais do trabalho mecânico, como renderizar pixels ou escrever boilerplate de código em Go, nosso papel sobe na stack: vai para visão, arquitetura, conhecimento de domínio e intenção.

Esse pânico não é o fim da criatividade humana. É uma fase bastante familiar de um ciclo que já vimos com a imprensa, a fotografia e os compiladores. A reação inicial tenta proteger as velhas formas de trabalhar. Com o tempo, a resistência se dissipa, as pessoas adotam as ferramentas e o meio se normaliza. O que os críticos rejeitam hoje como “slop” se tornará a ferramenta padrão de amanhã — e, com o tempo, o velho padrão que os futuros criadores tentarão mudar.

O que você acha? A arte de IA está passando por uma fase temporária de atrito ou você enxerga isso de forma diferente?

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